"Sabe quem nunca bambeia? Nunca se contradiz ou volta atrás?". Ele me perguntou com um ar cansado. Parecia um pouco chateado por perceber que, mais uma vez, precisava retroceder e se desculpar, enquanto via sua vida empoeirar depressa. Eu já não tinha muita paciência pra seus deslizes, tampouco tinha para ouvir suas filosofias roubadas de filmes antigos. Mas por alguma razão eu sabia que estar ali era uma forma de conseguir de uma vez por todas me libertar.

"A morte", respondeu. Eu ri. Suas rugas e manchas na testa me lembravam do tempo com T maiúsculo e me faziam pensar em tudo o que ele já havia feito. Das chances que teve de não errar e errou. Das vezes em que insistiu em destruir outras vidas tentando dar um sentido menos medíocre pra sua própria vida. Ri, porque sabia que ele não contava com o peso das escolhas. Ninguém nunca lhe disse que a vida cobrava, então cresceu achando que o que fazia era a lei.

Olhei longe e fiquei. A verdade é que somos pura reação. Essa é a lei. Em vez de florear a história com slogans indecentes que mandam fazer o bem, prefiro lembrar da responsabilidade. Talvez a melhor religião seria uma que tivesse um slogan sincero. Cheguei a esboçar um dia desses e era algo como: "faça o que fizer, lembre-se: você fez". Enquanto fervia em pensamentos, ele ficava repetindo frases, desculpando-se por coisas que eu já não me dedicava a pensar havia anos.

Voltei a olhar suas rugas e notei que um silêncio pousara sobre nós. Ele queria uma resposta, um perdão que - eu sabia, mas ele não - só ele poderia conceder a si mesmo. Sorri breve e disse minutos antes de fingir uma ligação urgente e ir embora: "Todo menino é um rei, pai. Tá tudo bem".

Há algo sobre o tempo que é meu espinho na carne. Há algo de peculiar e curioso em como ele me atravessa, na forma em que puxa meu corpo para o centro da Terra e estremece meus átomos tão delicadamente que quase não noto. Às vezes, me sinto uma senhora de 90 anos, observando a vida que me passa, sendo acometida de tempos em tempos pela ideia de que já vivi algo semelhante ao que estou vivendo. E, às vezes, me sinto como um bebê, uma menina que mal percebe a passagem da vida por si, que mal entende do que se trata o medo que sente e o deslumbramento que lhe brilha os pequenos olhos.

"O tempo é simultâneo", eu li há alguns anos. Li como um bebê que entende algo pela primeira vez, mas - não sei como explicar sem que pareça metáfora, juro que não é - ao mesmo tempo, senti como se fosse aquela velha senhora que sempre soube, que só tinha esquecido por um segundo, porque a memória anda falha como é de ser.

A velha, que habita seus anos bem vividos há anos de distância de mim, não entende ainda o porquê de eu fazer o que faço. O motivo de criar tantas histórias, tantas memórias, tantas ficções. Ela, de lá, sabe que isso, nem nada, levará a destino algum. A menina, em seus sonhos mais sinceros e sorrisos fora de hora, entende que cada história vivida, contada ou imaginada é tão unicamente curiosa que a instiga a seguir a voz que lhe conta numa paixão quase voraz.

Doutra parte, eu. Eu que observo tudo feito um narrador. Ora paciente, ora impaciente. Ora observador apenas, ora participante como se deve ser. Eu, que não me aguento em mim em tantos eus que me cabem, sigo tomando meu café, fazendo o meu trabalho e dando vazão às paixões estúpidas, efêmeras e vaidosas. Bem ou mal, sigo, recolhendo meus tempos, trapos e contando minhas histórias a cada passo que dou.

Certa vez, a mãe disse pra ela que ir para São Paulo era coisa de gente desesperada, ou que tinha um parafuso a menos. “Onde já se viu, um lugar que ninguém te conhece, não sabe quem é sua família, não foi sua professora, vai te tratar melhor que o lugar que você nasceu?”. Ela discordava. Queria mostrar para o mundo sua arte e seu olhar. O peso das palavras e a leveza do click. Além do mais, não tinha boa fama. Nem a sua escola. Nem sua família. Achava que a cidade grande era um lugar de tantas possibilidade, de tantos recomeços e tantos encontros...

E era mesmo. Cada vez que ia a São Paulo e descobria um novo bairro, bar, praça e galeria, queria ficar. Contava moedas, juntava as joias e pensava: será? As luzes e as placas e o metrô e as gentes e as chances. Tudo fazia olho brilhar saltitante. Conversava com gente de lá, e ficava sabendo de peça nova, de coisa barata, de vida agitada. Amores improváveis e empregos dos sonhos. E ela olhava para a mala. Quando eu venho? 

Mas às vezes era desolador. Gente que não tinha tempo de ver quadro novo no museu. Que não via o amigo há mais de mês. Que tinha mudando cinco vezes de emprego ou de casa. A mala ficava no canto. Muda e sem alça. 

Dessa vez tinha sido diferente. Conheceu um lado mais sombrio da Cidade. Com estradas escuras e intermináveis. Ligações não atendidas. Mensagens não respondidas. Palavras partidas. E as horas dentro de carros desconhecidos. As distâncias de São Paulo lhe causaram claustrofobia. Uma ligação, despretensiosa no meio do caos, que tinha que fotografar no interior do Espírito Santo. Interior. A Palavra sempre foi tão forte pra ela, porque menina periférica quer saber é das luzes da cidade. Mas naquele  momento, qualquer resposta brilhava mais que holofote. 

Quando chegou àquela praia de Iriri, lembrou-se do carnaval que passou lá. Quando nem sabia que amava tanto carnaval. Quando nunca tinha ido a São Paulo. Quando nunca tinha segurado uma câmera. Mas seus olhos eram lente de longo alcance. Sua memória de HD. Estava tudo salvo. Não precisava de mapa e nem de aplicativo. Era tudo tão orgânico. Um misto de pertencimento com o local e descolamento da cidade grande foi um baque inesperado.  

A verdade é que ela sempre pensou São Paulo, mas era Praia do interior. Era conhecer a dona do quiosque. Era andar a pé. Tirar uma foto  na areia. Deixar a câmera na areia sem se preocupar com a possível falta dela ao retornar do mergulho. Era esses lugarzinhos onde a palavra vale mais que o cifrão. E um prato quente de comida mais do que cordão de ouro. 

Porque ouro é algo mais para fora, mais para os outros. E a comida é para dentro. Para si. Ouro mostra sua riqueza para um outro que nem te perguntou nada. É uma máscara. Uma máscara que muitas vezes esconde uma cara feia. Cara feia para mim é fome. E às vezes é fome mesmo o que essa gente sente. Ou por não querer sair de um padrão de beleza ou para entrar em um padrão de riqueza.  E comida aquece o peito. Faz valer um dia longo de trabalho. Põe amigos e põe família em volta de uma mesa. Porque todo ouro dos judeus virou pó na segunda guerra. Todo ouro valia menos que um  prato de comida. Menos que a vida. O ouro era apenas um metal frio. Que não escondia que eles eram judeus. Que não escondeu de onde ela vinha. Que não esconde de onde eu vim. 

Ouro mesmo é pôr-do-sol. Laranja. Amarelo. Dourado. 

Existe uma lenda que, quase como todas as lendas, tem mais de verdade do que se espera, de que a linguagem surgiu porque tem coisas que ações não dizem. Você consegue mostrar que está com fome, que quer dormir, que não gosta de alguém, que gosta de alguém. Mas de lá pra cá eu tenho a impressão de que as pessoas se esqueceram do não verbal. Sorri é ressaltar que está muito feliz. Raspar o prato com olhos brilhando é dizer que está muito gostoso. Se enrolar num cobertor é relembrar que está com frio. É como se o ser humano tivesse perdido sua linguagem primária. 

Cada vez mais fã do silêncio e mais esperta para ler olhos, Catharina se fatiga ao ouvir explicações longas demais e floresce quando concorda com alguém usando os olhos. Certa de que as palavras são a maior invenção da humanidade e, por isso mesmo, usá-las indiscriminadamente é desperdício.

No caminho para o trabalho, chovia torrencialmente. Um carro desconhecido buzinou para ela na avenida engarrafada. No banco de trás estava um dos seus melhores amigos de faculdade. Ele fez sinal para que ela entrasse. Pedro nunca foi o mais falante nem o mais expressivo do círculo de amizade, mas Catharina sempre admirou sua capacidade de escolher as palavras certas e por nunca deixar os silêncios constrangedores.

As outras três pessoas dentro do carro falavam sem parar sobre o tempo, a notícia do jornal, o jogo do Brasil, o trabalho e o preço do almoço nos dias de hoje. E mesmo contra todas as teorias, que dizem que coisas complexas tem que ser verbalizadas, Pedro disse que sentia saudade, mas não tinha tempo. Que tinha amor, mas tinha medo. Que sempre gostou dela, mas tinha medo de afastá-la. E que na busca por deixar ela sempre por perto, a fez partir. Tudo isso com um toque de dedos tamborilantes.

Catharina chegou mais perto, querendo dizer apenas: está tudo bem.



Eu quero ser o pássaro que volta e meia vai te dizer que vai ficar tudo bem. Mas nem sempre. Na maioria das vezes, eu vou te irritar. Vou ser aquele belo canto que você não aguenta mais ouvir. A doce melodia dos animais que contrasta com a poeira que vem da rua, da cozinha, das grandes fábricas perto da praia. Vou te irritar porque é bonito o que digo, mas não parece nada com o que você vê ao seu redor. Vou querer te fazer feliz, enquanto você vai implorar pela solidão. Mas estarei ali, assobiando canções de esperança, meio que pra ser do contra.

Mas se você fosse o pássaro, eu mesma me faria corvo. Gosto de ser assim, oposto. Só assim pra transformar aquela noite louca que tivemos em prosa. Caso contrário, seria só mais um dia comum, sem nada muito extravagante pra fazer com que a minha péssima memória me lembrasse. E sei, também, que quando eu estiver corvo, você vai ser passarinho. Porque se não for assim, não será.

É como se tivéssemos selado esse contrato no primeiro momento em que nos vimos. E isso não é tóxico, pelo contrário. É só a gente tentando fazer aquele movimento de soma, sabe? De apresentar alternativas aos desejos próprios, e alheios. Não fosse isso, o caminho seria sempre uma linha reta, do qual já saberíamos o fim sem perguntar. Pra nós, quem vive assim se engana. É uma grande farsa. Por isso a gente entorta a linha, vira curva. Por isso a gente se alterna entre passarinho e corvo. Pra poder, vez ou outra, se sentir vivo.

Eu queria poder descrevê-la. Não sei, contudo. As limitações que me foram impostas desde o meu nascimento não me permitem usar essa linguagem para fazer com que você entenda como ela é incrível. Não são os cachos sempre tão bem colocados, ainda que numa bagunça leonina. Nem a boca, dois campos de algodão estrategicamente pintados de vermelho quase sempre. Tampouco os olhos, dois cortes de navalha no meio do rosto, milimetricamente desenhados... Dizem mais do que a palavra consegue dizer.

A beleza que ela carrega não tem forma. Aliás, até tem. Corpo violão, bunda, peito, etc e tal. Nunca passa despercebida e, às vezes, infelizmente, os homens extrapolam o limite da admiração. Não é culpa dela, contudo. A gente é que é besta, não sabe se comportar muito bem quando vê uma mulher dessa. Uma deusa, tão potente e tão poderosa.

Mas a beleza dela vai além. Tem uma coisa dentro dela, um espírito, uma luz, uma força, sei lá... Tem essa coisa que sei bem que nasceu com ela. E essa coisa faz com que ela alcance lugares que nunca tinha imaginado alcançar. Essa coisa faz com que ela dê risada como as que ela sabe dar, de fechar os olhos, jogar a cabeça pra trás e fazer todo mundo esquecer que o mundo é um moinho. Ela tem essa poder.

Ela gosta de encher suas taças com vinho, mas não sabe nem como começar a fazer um carbonara pra acompanhar. Não a culpo. O vinho e ela combinam tão bem. É com ele que ela sorri sozinha, pensa em tudo o que já alcançou sozinha. Depois lembra que, só, não fazemos nada. Lembra de quem caminhou e caminha lado a lado. Lembra que carrega consigo as dores e as alegrias de um povo e, por isso mesmo, sabe que o que tem, é ou faz não é só por ela.

Ela caminha devagar, mas os passos são largos. Vê a linha de chegada antes de todos, mas não se importa em ultrapassá-la. Ela quer ver o caminho, notá-lo. Observar o que faz a trajetória ser como é e, se possível, transformá-la. Ela se olha no espelho e agradece pela bênção que os deuses lhe concederam de ser quem é. Depois pede perdão por todas as vezes que esqueceu de amar o presente divino que é seu corpo, sua alma, seu coração.

É porque, no fundo, ela é de carne e osso. Teme que o amanhã seja vazio, teme que o que faz seja em vão e se atrapalha com amores mal fundamentados, mal baseados, mal construídos. Mas não dá nada não. Ela senta no bar com as amigas, dá aquela risada gostosa, se diverte com sua própria teimosia e diz que a vida é assim, é um sopro e a gente tem que aproveitar do jeito que der.

Eu me lembro bem. Eu te olhava e me enchia de sonhos, coisas a realizar. Eu e você. A gente brincava de contar paraquedistas do exército e de caçar carros vermelhos entre os que corriam apressadamente na avenida. Você desenhava tão bem que uma vez fez uma imitação daquele quadro do Dalí, dos relógios. Eu não sabia quem era Dalí, então fiquei encantada com sua originalidade. Havia um infinito de coisas que poderíamos fazer sem que eu enjoasse. A inocência é mesmo uma bênção. Às vezes.

Demorei a entender o motivo de te ver somente uma vez ao ano. E quando aconteceu, a vida começou a ter gosto de mingau queimado - daqueles que minha mãe fazia quando esquecia que tinha panela no fogo. Aliás, foi por isso que eu decidi fazer os meus próprios mingaus. E não falo metaforicamente, apesar de que daria uma ótima metáfora. Eu os fazia todos.

Tenho raras, quase nenhuma, lembranças em que recebia carinho dela e acho que foi por isso que gostei muito de você naqueles meus anos iniciais. Os poucos dias em que estávamos juntos eram sempre carinhosos. Hoje, depois muito pensar e escrever em blocos de papel, acho que o carinho dela era justamente aquele aquele mingau queimado.

Eu nunca os cobrei as falhas que se sucederam. Bem, elas não se sucederam de fato, eu é que as notei mais tarde. Foi como se o tique-taque do relógio revelasse a vida à mim da mesma maneira que o céu nublado dá lugar ao sol depois de uma noite fria. E aí, se a gente pensar na sinergia da vida, vai ver que essa ideia sempre esteve em mim e é por isso que amo os dias frios. Não sei. Tem algumas coisas que aceito não saber.

De fato, eu nunca os cobrei as falhas que se sucederam. Não assim como vocês têm feito agora, com palavras, choros, gritos e birras. Feito crianças amedrontadas com o perigo iminente da morte. Ora, mas esse perigo não foi sempre iminente? A velhice é só um indício. Também devo confessar que não a vejo assim como um perigo, sabe... Em alguns casos, é uma libertação. Mas ai de mim dizer isso perto de vocês.

De qualquer forma, talvez eu os tenha cobrado, sim. Mas se o fiz, fiz de um jeito meu, um jeito muito particular, um jeito assim, eu poderia dizer, tão metafórico que se perdeu em seus fins. Tentei de todas as formas dizer que eu estava infeliz, mas vocês não ouviram. O que mudou de lá pra cá não foi a felicidade, quem me dera!, mas saber que a infelicidade faz parte dos meus dias. Aceite-a como quem aceita uma xícara de chá, ainda que prefira um bom e velho pingado.

Eu metaforizei tudo desde lá, desde a casa de bonecas que ganhei num natal difícil no qual todos estavam bêbados e esqueceram que uma criança como eu deveria comer em algum momento. Nunca falei assim, com todas as sílabas. Sigo metaforizando. Dizem que é porque sou pisciana, mas me recuso a pensar assim, tão matematicamente. "Tinha que ser pisciana", eles responderiam.

Se eu pudesse dizer de uma outra maneira, diria que a morte é só um destino, que o caminho sempre esteve aí pra gente percorrer e, droga, lá vou eu de novo criar alegorias pra me expressar. Ah, diria que há perdão, mas que não há como voltar. Que o que se fez está feito. Pronto. Que o caminhar é o matar das horas, dos segundos, dos minutos e que a morte em si é só mais um passo.
acho que estava com uns 14 anos quando fui à são paulo com minha mãe pela primeira vez. assistiríamos o fantasma da ópera no teatro municipal, mas, como ficaríamos o fim de semana todo, pedi pra irmos à 25 de março. e foi lá que comprei meu primeiro e único disco da cyndi lauper, uma versão em cd-room do que foi o LP de true colors.

eu me lembro da sensação com uma leveza que ainda hoje me faz sorrir. ver sua cabeleira colorida estampando aquele encarte fez com que eu me sentisse menos esquisita com meus fios cor-de-rosa; minhas meias listradas em preto e branco; e meus cordões de bolas gigantescas. a verdade é que, à época, eu me sentia completamente deslocada em todos os ambientes que frequentava. eu, com minhas opiniões formadas sobre tudo, sem mesmo saber o que tudo poderia ser. "coisa da idade", teria dito minha mãe a algum parente que demonstrou preocupação com minhas decisões improváveis.

é certo que não vivi seu auge, o de lauper - inclusive, "girls just wanna have fun" já tinha mais de 20 anos quando eu a conheci; mas o que ela fez ecoa em mim desde minha adolescência rebelde. parece que a gente quer sempre ver um pouco da gente no outro, mas também um pouco do outro na'gente. ser aceito, no fim. e foi assim entre mim e ela.

acho que, olhando daqui e agora, eu não queria um mundo só meu no qual eu pudesse habitar sozinha. aliás, se o quisesse, teria sido uma das minhas maiores frustrações. o que eu queria era que outro mundo, diferente daquele que me rodeava, fosse possível. eu não queria ser uma garota comportada, afinal. e no instante que soube da existência de cindy lauper, eu percebi que esse outro mundo não só era possível, como também existia há décadas. e, bem, nele, as garotas só queriam se divertir...